Museu de Teatro em São Paulo

A museologia em São Paulo

ENTENDENDO A MUSEOLOGIA EM SÃO PAULO
(atenção: este texto é apenas um pequeno resumo)

Se as raízes mais antigas da museologia brasileira estão entranhadas na história de Pernambuco e Rio de Janeiro, seria apenas natural que os movimentos de renovação acontecessem nestes estados.

Os fatos mostram, no entanto, que não é isso que tem acontecido.

São Paulo tem lançado os projetos mais arrojados de museus do Brasil. Os exemplos atuais incluem o Museu do Futebol, da Língua Portuguesa, o Memorial da Resistência e o projeto do Museu da Cidade de São Paulo, que trata o território da própria megalópole como um objeto de musealização mais amplo e abrangente, aplicando os conceitos da sociomuseologia.

Vamos dar uma pincelada na história dos museus em São Paulo.

AS RAÍZES DO MUSEU PAULISTA

No que se refere ao edifício que abriga o museu, a proposta do projeto já era antiga. No site do museu (www.mp.usp.br) afirma-se que, pouco depois da proclamação da independência, em 1822, já havia uma primeira proposta para erigir um monumento às beiras do Riacho do Ipiranga, local onde a Independência foi proclamada. Por falta de verbas e de entendimentos quanto ao tipo de monumento a ser erigido, foi somente após sessenta e oito anos da proclamação que a idéia se concretizou, com a inauguração do edifício-monumento, em 1890.

O engenheiro contratado em 1894 foi o italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, que adotou o estilo batizado de eclético – e que, de acordo com o sítio do museu, viria marcar, a partir do final do século XIX, a transformação arquitetônica de São Paulo. O que é incrivelmente verdade: as construtoras de São Paulo ainda optam por estilo semelhante, mas agora devidamente repaginado e batizado de… neoclássico.

Assim, o que Bezzi fez foi importar o modelo de palácio italiano renascentista – que faz com que se pense na abordagem museológica pensada por Waldisa Rússio. Para a vila de repouso de tropas estava “muito bem” um palácio italiano, tão ao gosto também… dos franceses (vide o prédio do Louvre). Mas o que fazer dentro dele?

Quem deu o pontapé inicial na solução foi, por mais estranho que possa soar, o Governo Provisório do novo regime republicano (ou seja, militares) que, ao incentivar a conclusão do monumento em 1890 exigiu que a ele fosse dado um “destino útil”: de escola ou instituição científica.

Como imaginar a composição do acervo de tal museu? E qual seria o seu pensamento museológico?

Assim era composto o acervo que foi encaminhado para lá, segundo informações do próprio sítio do Museu:
O acervo do Museu Paulista tem sua origem em uma coleção reunida pelo Coronel Joaquim Sertório, da qual constavam espécimes de História Natural peças de interesse etnográfico e histórico. Esta coleção particular encontrava-se na própria residência do Coronel, situada no Largo Municipal, hoje Praça João Mendes. Em 1890, a coleção foi adquirida pelo Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, que a doou, juntamente com objetos da coleção Pessanha, ao Governo do Estado.

Em 1891, o Presidente do Estado, Américo Brasiliense de Almeida, deu a Alberto Löefgren, botânico da Comissão Geográfica e Geológica do Estado a incumbência de organizar esse acervo, designando-o Diretor do recém-criado Museu do Estado. As coleções existentes foram reunidas, em 1892, num prédio localizado no Largo do Palácio, atual Pátio do Colégio. No ano seguinte, foram transferidas para um prédio situado na Rua da Consolação.

Em 1893, o Museu do Estado deixa de pertencer à Comissão Geográfica e Geológica, por determinação do então Presidente do Estado, Bernardino de Campos. Como Diretor do Museu é designado o zoólogo Hermann von Ihering, incumbido de transferir o acervo da instituição para um novo local: o edifício-monumento recém-inaugurado, às margens do Ipiranga.

O Museu Paulista seria um dos museus brasileiros criados no século XIX a se encaixar na tipologia apresentada por K.Pomian, segundo Chagas.

Eles colaboram com o projeto de construção ritual e simbólica da nação; organizam discursos com base em modelos museológicos estrangeiros; buscam dar corpo a um sonho de civilização bem-sucedida; guardam e às vezes apresentam sobejos de memória dessa matéria de sonho. Mas quem sonha? As elites aristocráticas tradicionais é que sonham o sonho de um nacional sem nenhum sinal de sangue, sem a presença da cultura popular, dos negros aquilombados, dos índios bravios, dos jagunços revoltosos, dos fanáticos sertanejos, dos rebeldes que não têm terra, mas têm nome, família e um cachorro preto (mefistofélica presença).

Uma das instituições que teriam surgido desta influência é a Pinacoteca do Estado, criada em 1906.

Naturalmente, tudo muda, e é importante que conste um perfil atual do enfoque museológico do Museu Paulista, apresentado pela própria instituição:

Ao longo de seus mais de cem anos, o Museu Paulista sofreu uma série de modificações com o desmembramento de parte de seus acervos: em 1927, a seção de Botânica passou a integrar o Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal; 12 anos depois, em 1939, é a vez da seção de Zoologia, que passa a fazer parte da Secretaria de Agricultura, dando origem ao atual Museu de Zoologia da USP. A mais recente reformulação, ocorrida em agosto de 1989, transferiu os acervos arqueológicos e etnológicos para o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, restringindo, assim, a tipologia das peças que compõem o acervo da Instituição, atualmente, ao campo exclusivamente histórico.

E definem sua missão:
O Museu Paulista é uma instituição científica, cultural e educacional com atuação no campo da História e cujas atividades têm, como referência permanente, um acervo. Essas atividades envolvem, portanto, a formação e ampliação de coleções (por intermédio de doações, aquisições ou coleta de campo), sua conservação física, seu estudo e documentação bem como a divulgação, seja do acervo, seja do conhecimento que ele permite gerar, através de exposições, cursos e publicações. Enquanto museu exclusivamente histórico, o Museu Paulista é especializado no estudo dos aspectos materiais da organização da sociedade brasileira segundo três linhas básicas de pesquisa: Cotidiano e Sociedade; Universo do Trabalho; História do Imaginário.

ANTECIPANDO ESTRATÉGIAS PARTICIPATIVAS PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA: O DEPARTAMENTO DE CULTURA

Maria Cristina Bruno destaca a importância da criação do Departamento de Cultura em 1935: “As atividades do Departamento procuraram, sistematicamente, compreender a realidade cultural da cidade, incentivar as diferentes manifestações estéticas e valorizar as referências patrimoniais históricas.Aos olhos de hoje, poderíamos afirmar que neste momento foram implementadas metodologias de trabalho que anteciparam as estratégias participativas, para o exercício da cidadania, que seriam muito caras em décadas futuras”.

A pesquisadora cita também que foi neste momento que houve não só o início das nossas instituições culturais, mas sua organização em forma de sistema, com proposta de uma linha, de um planejamento cultural, que advinha de reflexões sobre as iniciativas patrimoniais- que agora se preocupavam com as transformações da cidade e da forma de vida dos paulistanos e de como estas mudanças também deveriam alterar as ações museológicas.

De forma resumida, o projeto do Departamento de Cultura pode ser assim sintetizado, em suas cinco divisões:

1.Expansão Cultural – dirigida por Mário de Andrade, acumulando o cargo de diretor do Departamento de Cultura (esta divisão recebeu também a Discoteca Pública que, além de colocar à disposição do público uma grande coleção de discos, mantinha o registro da música erudita paulista, o registro do folclore musical brasileiro e o museu da palavra. Este último com registros das diferentes modalidades, ritmos, entonações e expressões dos falares brasileiros, aos níveis erudito e popular).
2. Bibliotecas – dirigida por Rubens Borba de Moraes
3. Educação e Recreio – dirigida por Nicanor Miranda
4. Documentação Histórica e Social – dirigida por Sérgio Milliet e Bruno Rodolfer
5. Turismo e Divertimentos Públicos – não chegou a ser inteiramente implantada

O contraponto ao pensamento museológico desta equipe paulista – museu enquanto espaço de estudo e reflexão, instrumento capaz de servir às classes trabalhadoras, como instituição catalisadora e ao mesmo tempo resultante da conjugação de forças diversas, como âncora de identidade cultural – era o de Gustavo Barroso, que em 1922 criou o Museu Histórico Nacional, para ser um local destinado a realizar o “culto à saudade”, a “exaltação da pátria” e a celebração dos “vultos gloriosos”. Em comum, ambos tinham o problema da identidade nacional. Eram vários nacionalismos em jogo, como segue até hoje em um país multicultural e de dimensões continentais.

A chegada do Estado Novo em 1938 interrompe os sonhos políticos de Armando de Salles Oliveira à presidência da República. Fábio Prado é afastado da prefeitura de São Paulo e Mário de Andrade acaba saindo do Departamento de Cultura, por suas ligações com estas pessoas.

Do ponto de vista museológico, no entanto, Bruno destaca que as coleções constituídas neste período, a partir dos olhares múltiplos destes intelectuais, estão na origem de duas significativas vertentes de acervos municipais. Mediante um enfoque preservacionista, parte deste acervo gerou a organização de Departamento de Patrimônio Histórico e, a partir de uma perspectiva de ação cultural, as outras coleções subsidiaram a implantação do Centro Cultural São Paulo, ambos vinculados à Secretaria Municipal da Cultura.

AS DÉCADAS DE 1940 E 1950 EM SÃO PAULO

A década de 40 foi marcada pela instituição de museus nacionais por parte do governo federal, que não incluiu São Paulo neste planejamento. No entanto, graças às altas reservas financeiras geradas pelos industriais da cidade, nossos mecenas, houve a expansão dos museus de arte na cidade.

O Museu de Arte de São Paulo, o MASP, foi fundado em 1947, patrocinado por Assis Chateaubriand e idealizado por ele juntamente com o que viria a ser uma mítica figura no mundo das artes paulistanas: Pietro Maria Bardi, jornalista e crítico de arte italiano. O sítio eletrônico do museu informa que “A princípio, instalou-se em quatro andares do prédio dos Diários Associados, império de Chateaubriand formado por 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, editora e a revista O Cruzeiro. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas pessoalmente por P. M. Bardi na Europa do pós-guerra, em suas inúmeras viagens às principais capitais culturais com Chateaubriand” .

A atual sede do Museu, com projeto arrojado da arquiteta Lina Bo Bardi só foi inaugurado em 1968.

O sítio do museu informa também que, a convite do Museu d`Orsay de Paris, integra o “Clube dos 19”, do qual participam apenas os museus que possuem os acervos de arte européia mais representativos do século XIX, como Museu d´Orsay de Paris, Metropolitan Museum de Nova York, The Art Institute of Chicago, Museum of Fine Arts de Boston, Van Gogh Museum de Amsterdã, a Kunstaus de Zurique, Hermitage de St. Petersburg, a Galleria Nazionale d´Arte Moderna de Roma e National Gallery e Tate Gallery de Londres.

O Museu de Arte Moderna da São Paulo foi fundado em 1948, pelo industrial ítalo-brasileiro Francisco Matarazzo Sobrinho, mais conhecido por “Ciccillo” Matarazzo. Foi um dos primeiros museus de arte moderna no país, com modelo inspirado no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York (que era dirigido então por Nelson Rockefeller). A maioria parte do acervo pertencia ao casal Ciccillo e Yolanda Penteado.

Havia telas de Anita Malfatti, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Emiliano Di Cavalcanti, José Antonio da Silva, Juan Miró, Marc Chagall, Mário Zanini, Pablo Picasso e Raoul Dufy, entre outros.

Em 1951, aconteceu a 1ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, com 21 países participantes, seguindo os moldes da Bienal de Veneza, realizada desde 1895. Em 1958, o MAM muda para o Parque Ibirapuera, onde está até hoje.

A estrutura funcionou dividida, então, em duas: O Museu de Arte Moderna e a Bienal de Arte de São Paulo. Em 1963, as duas instituições se separaram e Ciccillo decidiu “em assembléia extinguir a sociedade que sustentava o Museu de Arte Moderna e realizar doação de todo o patrimônio (avaliado à época em 700 milhões de cruzeiros), acervo inclusive, à Universidade de São Paulo, para a criação do Museu de Arte Contemporânea da USP”.

Apesar das dificuldades para sua re-estruturação, O MAM se reergueu e segue em frente na sua atuação na capital paulistana.

Os museus históricos e pedagógicos (1956-1973)

Eles foram surgindo lentamente em 1956- eram apenas quatro. Em 1957, aparecem mais cinco. Em 1958, dando mostras de crescimento rápido, mais 19, até que em 1973 totalizavam… 79 museus!

Eram os museus históricos e pedagógicos, criados por meio de Decretos Estaduais, originalmente na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Foi esta a primeira rede museal pública do Estado de São Paulo, um projeto pioneiro que foi orquestrado por Vinício Stein Campos. É bem verdade que o projeto de Stein Campos teve seus méritos, mas há, acima de tudo, uma acusação principal que pesa contra ele: sua rigidez. Os intelectuais apontam que no período de sua regência, as cidades ficaram impedidas de desenvolver seus verdadeiros museus municipais, com características expressamente locais, como as tendências museológicas contemporâneas defendem que aconteça.

O lema de Vinício Stein era simples: “preservar a história do patrono e da cidade.” As finalidades que “orientaram a criação dos museus “eram:

1- Promover o levantamento e a proteção de todo documentário paulista da respectiva época;
2-Estudar e difundir a biografia do patrono;
3- Reconstituir a história do município e divulgá-la por todos os meios, especialmente nas escolas públicas;
4- Servir de centro de interesse para aulas de História Geral e do Brasil, de Educação Social e Cívica, de sociologia e cursos de extensão cultural;
5- Despertar na comunidade o interesse pela preservação dos monumentos históricos, documentos relíquias, móveis, quadros, utensílios, e demais objetos evocativos dos tempos de outrora;
6-Patrocinar certames culturais e festividades de cunho educacional e cívico;
7-Difundir as fundações de museus locais, especializados e gerais, como agentes de uma mentalidade nova, de culto ao passado e respeito e amor às tradições paulistas.

A museologia entra na Academia

Era apenas uma questão de tempo para que a Academia Brasileira, a universidade, começasse a pensar a museologia como uma ciência em franco desenvolvimento e, portanto, necessitando de estudos apropriados no âmbito da pesquisa.

Os museus e a USP têm uma história singular. O Museu Paulista, criado em 1893, já era considerado unidade complementar da USP desde sua fundação, em 1934. (…) Respectivamente, em 1927 e em 1939, foram destacadas do Museu Paulista as áreas de Botânica e Zoologia, passando a segunda a fazer parte da estrutura administrativa do Estado como “Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura”, posteriormente (1969) incorporado à USP como “Museu de Zoologia”. O atual Museu de Arqueologia e Etnologia da USP foi estruturalmente reconfigurado em 1989, pela integração de duas unidades da USP: o Instituto de Pré-História (por sua vez criado por Paulo Duarte, em 1962) e o MAE original (criado em 1964, com o nome de Museu de Arte e Arqueologia,como instituto universitário independente), O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) foi criado em 1963, quando da transferência das obras do Museu de Arte Moderna (MAM-SP) à Universidade de São Paulo.(2007,p.207)

Deve-se destacar o fato de que estes museus da USP,universidade na qual se deseja desenvolver o Museu de Teatro que aqui se apresenta, formam o maior conjunto universitário do país hoje. São unidades museológicas que interagem com as unidades universitárias, para simplificar.

Para que houvesse esta expansão acadêmica- um movimento que se mantém até hoje com a continuação dos trabalhos acadêmicos- houve a necessidade de se localizar no tempo e espaço uma figura quase mítica da museologia paulistana, formadora de uma geração muito significativa de pesquisadores atuantes na área hoje: era a professora Waldisa Rússio.

WALDISA RUSSIO- UMA VANGUARDA SOLITÁRIA

O Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB-USP, publicou a seguinte biografia de Waldisa Russio:

Waldisa Russio Camargo Guarnieri nasceu (05/09/1935) e faleceu (11/06/1990) em São Paulo. Museóloga e professora. Graduou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, em 1959, desenvolvendo, ao longo da década de 1960, múltiplas atividades docentes e funções administrativas junto ao serviço público estadual. No desempenho dessas funções, entrou em contato com a área cultural e, especificamente, com o universo museológico. Organizou as estruturas jurídicas e administrativas do Conselho Estadual de Cultura (1968), do Museu de Arte Sacra de São Paulo (1969) e do Museu da Casa Brasileira (1970). No final de 1970, foi nomeada diretora técnica do Museu da Casa Brasileira, cargo no qual permaneceu até 1975. Nesse ano, passou a exercer as funções de assistente técnica para museus na Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, responsabilizando-se pelo projeto de pesquisa sobre os museus do Estado de São Paulo (1976-1977) e pelo projeto museológico da Casa Guilherme de Almeida.

O que parece ter sido realmente seu tour de force foi ser a primeira pessoa a estabelecer uma discussão acadêmica sobre museologia e o tema que ela vai abordar em sua dissertação de mestrado na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo: os próprios museus de São Paulo. A dissertação era Museu: um aspecto das organizações culturais de país em via de desenvolvimento (1977).

Neste período parece extremamente pertinente reclamar da falta de materiais de estudo, publicações sobre o tema e ausência de interlocutores capacitados. A sensação que se tem ao ler o trabalho é que é de uma atualidade espantosa, mostrando a capacidade de reflexão e de previsão do que seriam as instituições paulistas do futuro. O frescor do trabalho permanece, o que evidencia o potencial analítico da autora, inclusive em algumas (discretas e sutis) críticas à USP.

Não bastasse ter superado o mestrado, envolve-se no programa de doutoramento da mesma escola com um projeto ambicioso, cujo título era: Um museu da indústria na cidade de São Paulo (1980). A classificação ambicioso se dá por ser um museu absolutamente inovador, “com características de museu-processo com múltiplas sedes; num sistema de aquisições não baseado em apropriações de objetos; no caráter interdisciplinar e recrutamento de pessoal técnico de diversos níveis escolares; na formulação de um trabalho que seja não somente acadêmico, mas exeqüível, aplicável”.

Outros conceitos definidos por ela devem ser enumerados, para uma maior aproximação ao pensamento de Waldisa Russio:

1. Waldisa já previa o abismo entre desenvolvimento e progressos tecnológico e econômico. A problemática do desenvolvimento é finalmente percebida como mais complexa. Em sua dissertação de mestrado, afirma que “não basta ao ser humano a fruição de um grande conforto material quando sua alma está suspensa, presa por um fio de insatisfação” e em seu doutorado sugere o tempo todo uma reflexão crítica sobre o processo de industrialização. (CÂNDIDO, 2002)

2. Waldisa Russio refletiu sobre museu e futuro, aludindo ao museu como “deflagrador das utopias”. A musealização tem um sentido, em sua obra, não somente de registro do passado, mas de preservação do presente e antecipação do futuro. (CÂNDIDO, 2002)

3. Russio é defensora do caráter preservacionista da Museologia, O poder da memória deveria se fundamentar na visão prospectiva. Nela, a especificidade da ação museológica é o pressuposto da preservação. Neste caso, a preservação tem um sentido não de saudosismo, mas de informação para ação. A preservação tem fundamento político. (CÂNDIDO, 2002)

4. As atividades educativas devem ser um aprendizado constante, para o desenvolvimento da criatividade, do senso crítico e da consciência.

Mas entre os mais conhecidos conceitos definidos por Waldisa Russio está o de fato museual, que, nas palavras dela mesma, quer dizer: “uma relação profunda entre o homem, sujeito conhecedor, e o objeto que é parte da realidade à qual o homem pertence e sobre a qual ele age”.

Russio lutou ainda pela regulamentação da profissão de museólogo (que ela acreditava que deveria ser ensinada aos profissionais como disciplina científica independente, habilitando a pensarem como co-criadores dos processos museológicos). Fundou o Conselho Regional de Museologia de São Paulo. Foi também membro da primeira diretoria do Conselho Federal de Museologia, fundou e presidiu a Associação Paulista de Museólogos (ASSPAM) e a Associação de Trabalhadores em Museus (ATM).

Ela criou também o primeiro curso de pós-graduação em Museologia, que iniciou suas atividades em 1978, ligado à Escola Pós-graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Esse curso deu origem, em 1984, ao Instituto de Museologia de São Paulo, responsável pela formação de toda uma geração de museólogos brasileiros.

Talvez por ter falecido prematuramente (em São Paulo, em 11 de junho de 1990), aos 55 anos, não se preocupou em preparar um discípulo que a substituísse no importante trabalho da Escola de Sociologia e Política. O curso resistiu apenas mais algum tempo e foi depois definitivamente encerrado.

A SECRETARIA MUNICIPAL DA CULTURA

Em 1975, foi criada a Secretaria Municipal da Cultura. De acordo com o sítio eletrônico da instituição:

O Departamento de Cultura nasceu do sonho de várias personalidades revolucionárias para a época, como Sérgio Milliet, Mário de Andrade e Paulo Duarte. Este último foi autor do primeiro projeto enviado, em 1935, para o então prefeito de São Paulo, Fábio Prado. Criado a partir do Ato nº 861, o departamento teve como primeiro diretor o escritor Mário de Andrade.

Dentre as atividades desenvolvidas pela nova pasta, destacaram-se: pesquisas folclóricas, levantamentos demográficos, construção de parques infantis, criação do Coral Paulistano e do Setor de Iconografia, além de desenvolvimento de publicações variadas.

Destituído Mário de Andrade do cargo de diretor, o departamento manteve o caráter pluralista da proposta original, buscando valorizar a vida cultural da cidade; promover a diversão de crianças e adultos e dar visibilidade às festas tradicionais de São Paulo. Ficou, também, sob sua responsabilidade a guarda e conservação de documentos históricos.

Em 1945, o Departamento de Cultura foi vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Higiene e, em 1947, à Secretaria Municipal de Cultura.

A Secretaria Municipal da Cultura está dividida da seguinte maneira:

Centro Cultural São Paulo (que possui bibliotecas especializadas, o Arquivo Multimeios, a Coleção de Arte da Cidade, a Discoteca Oneyda Alvarenga, a Missão de Pesquisas Folclóricas (estabelecida por Mário de Andrade) e a seção de Conservação e restauro.
Núcleo vocacional, com projetos na área da dança, música e teatro.
Teatro Municipal de São Paulo
Sistema Municipal de Bibliotecas
Centro Cultural São Paulo
Departamento de Expansão Cultural
Departamento de Administração e Finanças
Departamento de Assessoria Jurídica
Departamento de Assessoria de Comunicação
Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental)
CAAPC (Comissão de Averiguação e Avaliação de Projetos Culturais)
Centro Cultural da Juventude
Departamento de Patrimônio Histórico (DPH)

O Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), reformulado, em 1975, quando da criação da Secretaria Municipal de Cultura, passou a contar com uma estrutura que se mantém até os dias de hoje, composta por três divisões técnicas e uma administrativa:
o Divisão do Arquivo Histórico Municipal: tem sob sua responsabilidade a preservação dos documentos históricos produzidos pela administração pública municipal
o Divisão de Preservação: trata da salvaguarda do patrimônio histórico e cultural, constituído pelos elementos tangíveis que configuram a cidade.
o Divisão de Iconografia e Museus: cuida da administração das casas históricas, bem como a guarda do acervo de bens móveis e dos documentos em suporte fotográfico.
Finalmente chega-se ao Departamento que interessa nesta pesquisa, que é a Divisão de Iconografia e Museus, a DIM.
A DIM é responsável por um conjunto expressivo de casas históricas. São elas:

o Solar da Marquesa de Santos, Beco do Pinto e Casa da Imagem de São Paulo (casa número 01), um conjunto de imóveis que remontam ao século XVIII.
o A Casa do Bandeirante, um imóvel remanescente do final do século XVIII, que representa um encontro entre as culturas caipira e urbana.
o A Capela do Morumbi, construída no século XX.
o A Casa do Sertanista, no Butantã, representante arquitetônico do século XVIII.
o O Sítio Morrinhos, na Casa Verde (Jardim São Bento), engloba elementos dos séculos XVIII, XIX e XX e abriga também a sede do Centro Arqueologia de São Paulo.
o A Casa do Sítio da Ressaca, construção do início do século XVIII.
o O Monumento à Independência e a Casa do Grito, ambos localizados no bairro do Ipiranga, retratam o contexto histórico do país nas duas primeiras décadas do século XIX.
o A Casa Modernista da Rua Santa Cruz, de autoria do arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik (1896–1972), projetada em 1927 e construída em 1928.
o Casa do Tatuapé, o imóvel mais antigo de toda a rede, construída no século XVII.

É neste momento que se encontra a terceira fase da DIM: o Museu da Cidade de São Paulo, de 2003, elaborado por Maria Ignez Mantovani Franco, que de acordo com Cristina Bruno nasce a partir de um legado constituído em diferentes épocas e por distintas estratégias, responsável pela identificação, seleção, estudo, salvaguarda e comunicação das referências culturais que, organizadas em acervos e coleções, formam a memória sobre São Paulo e consubstanciam diversas instituições museológicas nos seus procedimentos de conservação, documentação, exposição e ação educativo-cultural.
Maria Ignez Mantovani Franco defendeu em 2009 sua tese de doutoramento na Universidade Lusófona. O título da tese era Museu da Cidade de São Paulo: um novo olhar da sociomuseologia para uma megacidade. Ela retoma em detalhes o projeto, bastante distinto do que está sendo desenvolvido pela Prefeitura da Cidade de São Paulo.

Segundo MANTOVANI, “o desafio do Museu da Cidade de São Paulo aqui proposto está em descobrir uma sintaxe que agregue os múltiplos sentidos, iniciativas, fragmentos, vestígios e legados que esta sociedade produziu e produz, para interpretá-los, de forma contemporânea, para a população de São Paulo, residente e flutuante. É significativo notar que o Museu da Cidade não pretende centralizar instituições ou aglutinar acervos, municipais ou não, nem mesmo se apropriar de iniciativas já instaladas e que tenham efetiva ação social. O desafio concentra-se em conceber um museu que seja ao mesmo tempo marco referencial dos eixos patrimoniais da cidade, permitindo suas múltiplas leituras e garantindo a necessária permeabilidade entre as instituições já sedimentadas; por outro lado é indispensável manter a aparente ambigüidade em se tornar o ‘ícone da cidade’, sem represar sua ação, espraiando-se por São Paulo em múltiplas faces, formatos e ações sistêmicas, porém descentralizadoras”.

Ela também esclarece que:

O Museu da Cidade de São Paulo, como objeto de estudo e de problematização museológica, busca explicitar uma metodologia interdisciplinar, já testada entre 2003 e 2004, que enuncia a concepção de um novo modelo de museu de cidade, que tem como objeto de análise a grande metrópole, em interlocução com as lógicas próprias do mundo globalizado, porém canonicamente erigida sobre os preceitos fundadores da Sociomuseologia.

O sítio eletrônico da DIM estabelece que O Museu da Cidade de São Paulo é uma rede de casas históricas formada por 12 exemplares arquitetônicos administrados pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Criado em 1993, por meio do Decreto nº 33.400, sua conceituação e concretização vem sendo feita progressivamente, ao longo de sucessivas administrações. A vocação de cada espaço foi definida a partir da identificação de suas características.

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