Museu de Teatro em São Paulo

História do teatro na cidade de São Paulo

O teatro já acontece em São Paulo há muito tempo!

Não dá para falar de teatro em São Paulo na Idade Média, a não ser que se considere o ritual indígena das mais diversas cerimônias como uma atividade teatral. Mas essa já é outra discussão.

Sábato Magaldi afirmou que o Brasil viu nascer o teatro das festividades religiosas. Desde 1554, data da Fundação da Cidade, o teatro tem sido uma constante em nosso meio. Antes mesmo do aparecimento de José de Anchieta (1534-1597), nosso primeiro dramaturgo oficial, há indícios de que já havia atividade teatral nas terras brasileiras. Quem fala disso é o próprio Anchieta,que afirma que recebeu a incumbência de escrever um auto para impedir abusos que se faziam com autos nas igrejas, o que indica que outros autos eram apresentados.

Esses eram apresentados dentro da igreja, sabia? E os padres reclamavam que era um abuso, que já vinha de Portugal e que os autos nem sempre eram de devoção. Ou seja, nesses divertimentos populares, apresentavam personagens ou trechos menos convenientes à casa de Deus.

Foi em 1561, no Pateo do Collegio, que aconteceu a primeira encenação de Na Festa de Natal ou Auto da Pregação universal, a primeira peça dramática de Anchieta.

Lacunas teatrais, mas não cênicas?

Era de se esperar que Anchieta deixasse algum seguidor, não era? Mas não foi bem assim.

Em 1728, uma verdadeira revolução: além das festas de São Sebastião e do Corpo de Deus, eles teriam que fazer agora a da Visitação de Nossa Senhora e a do Anjo Custódio. Nestas ocasiões, descreve Silva Bruno, as ruas e becos tinham que ser limpos, as casas rebocadas e as portas iluminadas. Folhas deveriam ser espalhadas pelas ruas até que o percurso da procissão estivesse completo. As procissões eram acompanhadas com danças.

Por volta de 1810, na Paixão de Cristo, os homens iam paramentados com… uniformes dos legionários da Roma Antiga! E a cavalgada de São Jorge, que seguia o Corpus Christi, deveria ser algo de impagável: um cavaleiro chamado Casaca de Ferro, envergando armadura de papelão pintado, que hasteava bandeirola vermelha com cruz branca no centro; dois cavaleiros negros, vestindo calções amarelos, coletes vermelhos, capas agaloadas da mesma cor, tendo na cabeça chapéus com plumas. Um deles tirava de um clarim sons descompassados e o outro tangia dois timbales. Um cavalo transportava o santo – de madeira, claro, vestindo arnês de ferro (pintado sobre madeira), capa de veludo carmesim agaloada, chapéu com pluma branca e uma lança em riste.

O cavalo, naturalmente, tinha sua crina trançada com fitas cor de rosa e os cascos pintados de dourado! O hábito das procissões diminuiu muito, mas ainda existe em alguns locais da cidade de São Paulo.

Casa da Ópera

A primeira casa da rua, no lado direito, é a Casa da Ópera

Em 29 de janeiro de 1763, a Câmara da cidade não achou conveniente que se construísse uma casa de espetáculos, porque não convinha ao bem comum de sua gente. No entanto, de alguma forma o decreto foi revogado, pois documentos mostram que em 1765 a Casa da Ópera foi arrendada na Rua de São Bento e, em 1770, relatos afirmam que o teatro estava distintamente iluminado.
Era um sobrado como outro qualquer, na pobreza da Vila de São Paulo.

Era de taipa, com paredes de barro calcado entre tabuões, atravessado por tira de madeira e caídas com tabatinga. Janelas de gelosia, que eram três no pavimento de cima, e três portas largas no térreo. Por fora não mostrava o fim para que se destinava. Era uma casa estreita, sem nenhum ornamento arquitetônico, pintada em seu tempo de vermelho e com janelas de postigo preto. Entrava-se no teatrinho paulistano por um vestíbulo estreito, por onde se ia aos camarotes e à platéia. A sala, com vinte e oito camarotes em três ordens, era iluminada por um lustre e por uma porção de velas. A platéia parece que só era freqüentada por homens, que se sentavam em bancos de madeira. Trezentas e cinquenta pessoas cabiam nesse teatro do pátio do Colégio, cujas decorações, pano de boca e pintura do teto não valiam grande coisa.

Mas Afonso de E. Taunay diz que nosso repertório de teatro colonial era bastante variado. Ele cita espetáculos de Moliére, Racine, Corneille e até tragédias de Metastásio e Alfieri. No começo do século XIX, o simpático Von Martius, em passagem pela cidade, viu na Casa da Ópera a opereta Le Deserteur, com artistas negros e mulatos e disse que o ator principal era um barbeiro que “emocionou seus concidadãos”. Já não se pode conceder nenhuma simpatia para o viajante Saint-Hilaire que assistiu aqui uma apresentação de O Avarento e saiu dizendo que era péssima, que “as atrizes eram mulheres da vida e os atores operários, pobres e mulatos”. Pior é que deveria ter razão! Mas suavizou a crítica ao finalizar dizendo que “alguns deles possuíam inclinação para a cena”.

Enquanto isso, a Casa de Ópera resistia bravamente. Em 1822, na Proclamação da Independência, D. Pedro I e sua comitiva estavam na cidade e foram à Casa da Ópera.

E os estudantes chegaram em 1828, com a fundação da Academia de Direito “Em 1829, um grupo de estudantes formou uma sociedade acadêmica e arrendou o prédio por cinco anos”, de acordo com Beth Azevedo e “fundaram sua própria companhia com Fernando Sebastião Dias da Mota (trágico), José Maria (cômico) e Jósimo do Nascimento (ingênua). Conta-se que este último causou espanto pela sua magnífica performance (…)” A alegria dos moços durou pouco, pois foram logo em seguida proibidos de participar de atividades públicas, mesmo em teatros particulares.

Em 1870, a Casa da Ópera foi demolida.

Dois pequenos teatros – o do Palácio e o Batuíra

Não se sabe muito sobre o Teatro do Palácio. Sabe-se que funcionou nos baixos do Palácio do Governo, no Pátio do Colégio, no século XIX, e que foi criado provavelmente entre 1811 e 1813. Foi utilizado pela Sociedade de Harmonia Paulistana, em 1832. Adotou depois o novo nome de Teatro Harmonia Paulista; foram substituídos pela empresa União e Constância, composta de jovens artistas e negociantes. Em 1860, recebeu ordem de ser destruído, por risco de incêndio.

O Teatro do Batuíra tinha este nome em função do nome de seu proprietário, o português Antônio Gonçalves da Silva Batuíra, que veio moço para o Brasil e vendendo jornais e charutos juntou dinheiro e montou este teatrinho, que funcionou no período de 1860 a 1870, na Rua da Cruz Preta, nº10, no trecho que ia da Rua do Jogo da Bola à Rua da Freira (na ordem, atuais ruas Quintino Bocaiúva, Benjamin Constant e Senador Feijó).

O Teatro do batuíra ficava nessa rua

Sua pequena platéia e uma única ordem de tribunas não comportavam mais do que duzentos espectadores, quase sempre estudantes da Academia de Direito, entre os quais assiduamente eram vistos Martinho Prado Júnior, Domingos Marcondes e Souza Lima, e, por vezes, o futuro Barão do Rio Branco.

O Teatro São José

O teatro São José começou a ser construído em 1858. Em 1864, o teatro foi inaugurado, mesmo não acabado e cheio de problemas. A platéia era de chão batido e, por algum tempo, muita gente assistiria espetáculos sentada em cadeiras levadas pelos escravos. O teatro só ficou pronto em 1874, e dispunha de acomodações para mil duzentas e cinqüenta e três pessoas.

Teve um fim trágico: pegou fogo em 1898.

O Provisório Paulistano foi aberto em 1873 e recebeu companhias nacionais e internacionais, fechando depois da reabertura do novo São José, para o qual as companhias preferiam se deslocar. Fechou em 1878, mas reabriu com novo nome em 1879 – era agora o Teatro Ginásio Dramático. A partir de 1891, passou a ser o Teatro Minerva. Passou por nova reforma e reabriu com o nome de Teatro Apolo, reabrindo a 16 de fevereiro de 1895. Foi demolido provavelmente em 1898.

O Teatro Politeama foi fundado em 21 de fevereiro de 1892, sendo a terceira casa de espetáculos que São Paulo tinha no período. Era para cerca de três mil pessoas. Era um barracão de zinco e madeira, amplo, em formato circular, de perfeita solidez, em arco. Era inicialmente um circo, depois apresentou companhias eqüestres, e aí conheceu o auge com companhias líricas. Tudo se acabou em 27 de dezembro de 1914, quando o Politeama pegou fogo. E foi destruído.

O Teatro Politeama

O Teatro Santana surgiu por sobre o terreno do antigo Teatro Apolo, que foi comprado e ao qual se juntaram os terrenos de algumas casas laterais. Foi aberto ao público em 1900, com grande luxo. Era iluminado com luz elétrica e a gás, tinha entradas separadas para artistas e público, que se distribuía na platéia e em duas ordens de camarotes, sem colunas. As cadeiras e poltronas da platéia e do balcão tinham seu assento de palhinha, com pernas ou armações de ferro, como então eram usadas nos mais modernos teatros da Europa.

Em 12 de janeiro de 1912, o prédio foi vendido ao governo para a construção do Viaduto Boa Vista.

O Teatro Santana- chic era pouco.

O Teatro Colombo ficava no Largo da Concórdia, e podia receber 1968 pessoas. Foi inaugurado em 1908, pela Companhia Dramática Italiana, de Antonio Bolognesi. Passou um tempo sendo usado como cinema e em 1966, no dia 19 de julho, foi destruído por incêndio.

O novo Teatro São José foi erguido em localização distinta do primeiro. Aquele era bem central, e este ficava no Morro do Chá. Foi inaugurado em 28 de dezembro de 1909. Foi adquirido pela The São Paulo Tramway, Light and Power Company, que demoliu o teatro e construiu seus escritórios. Hoje o prédio é ocupado pelo Shopping Light.

O Teatro Municipal de São Paulo

Em 26 de junho de 1903, foram “assentadas as primeiras pedras para a implantação do grande edifício”, que ficou pronto em 1911. Era o Theatro Municipal de São Paulo.

O projeto era de Francisco de Paula Ramos de Azevedo, com assessoria de Domiziano Rossi e Cláudio Rossi.
O mármore branco da impressionante escadaria central, implantada em vão com vinte metros de altura, veio de Milão, na Itália, bem como a balaustrada em mármore amarelo. As estruturas de ferro vieram de Dusseldorf, os ferros artísticos de Frankfurt; os mecanismos de cena de Colônia; os ornamentos em bronze artístico e os mosaicos de pavimento de Berlim (parte veio de Nova York); os vitrais de Sttutgart (mas foram montados aqui pela Casa Conrado); as máquinas de ventilação, aquecimento e refrigeração, bem como parte do mobiliário, também vieram de Frankfurt, na Alemanha.

A “estatuaria”, como chamou Ramos de Azevedo, veio de Milão e Paris, afora as que foram executadas aqui. Os mosaicos venezianos – representando o Ouro de Reno e A Cavalgada das Valquírias, vieram de Veneza, indicando não só o estilo mas a origem. As tapeçarias vieram de Milão, ainda que parte tenha sido feita também no Liceu de Artes e Ofícios.

Foram quatro milhões e quinhentos mil tijolos para dar forma ao prédio, alma gêmea do Palais Garnier, que já espalhara suas influências em outros teatros na Latino América – O Teatro Colón, de Buenos Aires; e o Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, capital da República na época da inauguração do Theatro de São Paulo.
O Theatro completará, em breve, 100 anos.

O Theatro Municipal de São Paulo

Depois do Municipal, o que há para se dizer?

Há muito a se dizer, porque o teatro paulistano foi decolando aos poucos e assumindo papel muito importante na vida cultural da cidade. Merece destaque, antes de passar aos trabalhos mais importantes de teatro no século XX na cidade de São Paulo, apenas mais um edifício teatral, o Teatro São Pedro, na Barra Funda, que foi construído em 1917 e ainda existe, reformado em toda a sua simpatia.
Entre 1948 e 1964 aconteceria o desenvolvimento do Teatro Brasileiro de Comédia. A encenação no Brasil nunca conheceu em tão pouco tempo uma expansão tão grande. Era um brilho dotado de um tom bastante europeizado, originado na presença dos técnicos italianos convocados para o trabalho. O realismo foi o estilo dominante desta empresa.

Saíram do TBC atores e diretores que formaram novas – e importantes – companhias de teatro: Nydia Lícia-Sérgio Cardoso, Tônia-Celi-Autran, Teatro Cacilda Becker, Teatro dos Sete…

O Arena e o Oficina – a pesquisa se aprofunda

Em fevereiro de 1955, inaugura-se o Teatro de Arena, com A Rosa dos Ventos, de Claude Spaak. A direção era de José Renato, ex-aluno da Escola de Arte Dramática (EAD).

É a partir de 1961 que o Teatro de Arena começa a se tornar um laboratório de pesquisas e realizações cenográficas com a estréia de Flavio Império. Em 1961, estreava O Melhor Juiz, O Rei, com direção de Augusto Boal, cenografia e figurinos de Império.

A Arena, passando por várias fases de atuação, encerraria suas atividades como núcleo criador em 1971.

O Teatro Oficina iniciou timidamente suas atividades também em 1958, com duas peças: A Ponte, de Carlos Queirós Teles e Vento forte para um papagaio subir, de José Celso Martinez Corrêa.

Da lista de espetáculos do Oficina, alguns podem ser destacados como ícones da encenação nacional, a saber: Pequenos Burgueses (1963); Andorra (1964); O Rei da Vela (1967); Roda Viva (1968); Galileu Galilei (1968); Ham-let (1993); Cacilda! (1998); Boca de Ouro (1999); Os Sertões [A Terra (2002); O Homem I (2003); O Homem II (2003); A Luta I (2005); e A Luta II (2006)].

O teatro em São Paulo hoje

Na verdade, são Paulo conta hoje com mais de 60 teatros formalmente constituídos. Além dos espaços de pesquisa, que são uma vertente muito forte do teatro paulistano hoje. Não estão incluídos os espaços da Companhia Balagan, da diretora Maria Thais, na Barra Funda; O Teatro da Vertigem, do encenador Antonio Araújo (que ocupa espaços diversos durante as encenações); a Companhia Livre, com direção de Cibele Forjaz; Grupo XIX de Teatro, com direção de Luiz Fernando Marques (que ocupa um antigo armazém na Vila Maria Zélia); o espaço dos Fofos Encenam, dos diretores Newton Moreno e Fernando Neves (em casarão na Bela Vista); Os Satyros, do ator e dramaturgo Ivam Cabral e o diretor Rodolfo García Vázquez; Os Parlapatões, de Hugo Possolo, Raul Barretto, Claudinei Brandão e Henrique Stroeter (também na Praça Rossevelt); a Cia São Jorge de Variedades, de Georgette Fadel, o grupo TAPA, de Eduardo Tolentino e o Galpão do Folias (na Barra Funda); As Graças, que em 2004 fizeram um projeto dentro de um ônibus teatro… E a lista segue.

Temos edifícios teatrais de todos os tipos: arena, semi-arena, elisabetano, italiano, panorâmico, alternativo… Espetáculos em banheiros, prédios públicos, livrarias, casas abandonadas, vilas abandonadas…

Para que se diminua a injustiça, não se pode deixar de citar os espetáculos de teatro de rua, já que teatro não acontece apenas dentro do edifício teatral. E os contadores de histórias? E o teatro feito nas escolas? E o teatro amador, que segue com força na metrópole que foi um dia vila na qual estudantes de direito se divertiam fazendo teatro?

Na cidade que atingiu mais de onze milhões de habitantes, mapear a atividade teatral se torna uma arte das mais difíceis. A arte teatral paulistana é vibrante, pulsa, tem energia e características que nos colocam ao lado dos melhores do mundo.

E o mundo tem vindo se apresentar por aqui.

3 Respostas

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  1. Elizabeth Azevedo said, on 02/19/2010 at 18:45

    Fausto,

    viu que falta faz uma pesquisa sobre os teatro do começo do século. O recorte do Barreto do Amaral deixa de fora um monte de salas.

    • Fausto Viana said, on 02/20/2010 at 9:50

      Beth,

      Com certeza. Mas na tese, sabe o que fiz? Peguei o seu trabalho e incluí. Sabe? Este: AZEVEDO, Elizabeth (2004). O teatro em São Paulo- 1554-1954. In PRADO, Antonio Arnoni, et all. História da cidade de São Paulo: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, p.523-83.

      O resto é com você mesma!!! (risos)

      Ou você conhece alguém melhor para fazer este trabalho? Eu não conheço.

    • Fausto Viana said, on 02/26/2010 at 10:38

      Beth, com certeza! E mais, um recorte novo que inclua cenografia e indumentária.


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